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“Se não fizer por propósito, faça porque dá lucro”: as lições de Luiza Helena Trajano no Canal Equidade

Diversidade não é apenas uma escolha ética. É também uma decisão de negócio. Essa é uma das mensagens centrais de Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magalu, na estreia da terceira temporada do Canal Equidade.

Em uma conversa conduzida por Ivan Lima, head do LIDE Equidade Racial, fundador da IRL Consult e criador do programa, a empresária revisita sua formação, os bastidores do histórico trainee exclusivo para pessoas negras do Magalu e os princípios que orientam sua visão de liderança, inclusão e futuro do Brasil.

Luiza Helena Trajano em entrevista a Ivan Lima no Canal Equidade.

Uma liderança formada para buscar soluções

Ao voltar à infância, Luiza Helena reconhece a influência de mulheres fortes, que a ensinaram a acreditar na própria capacidade e a assumir responsabilidade diante dos problemas. Em vez de simplesmente acolher uma queixa, sua mãe perguntava o que ela havia feito para resolver a situação.

“Fui criada com pouca dó de mim, mas achando que eu era capaz.”

O aprendizado se transformou em uma postura de liderança: procurar soluções, pedir ajuda quando necessário e reunir diferentes competências. Para ela, quanto maior a dificuldade, mais importante é buscar outras pessoas e somar perspectivas.

Essa liderança humanizada também está ligada à consciência sobre as marcas deixadas pela escravidão e pelo racismo no Brasil. Luiza conta que, ainda jovem, decidiu não assistir passivamente a essa realidade. Essa escolha ajudou a formar uma empresária que entende o compromisso social como parte de sua atuação.

Diversidade: propósito e estratégia de negócio

Na entrevista, Luiza propõe duas formas complementares de compreender a diversidade. A primeira nasce dos valores: pessoas não podem receber tratamento desigual por sua cor, gênero, idade ou condição. A segunda parte de uma análise objetiva do mercado.

Empresas que desejam compreender seus consumidores, inovar e tomar decisões melhores precisam colocar à mesa pessoas capazes de representar a pluralidade da sociedade brasileira. Quando as equipes de decisão são homogêneas, experiências, necessidades e oportunidades de mercado permanecem invisíveis.

“Se você não faz por propósito, faça porque isso dá lucro.”

A frase que dá título à conversa não reduz a equidade a uma conta financeira. Ela amplia o argumento: mesmo quem ainda não compreendeu a dimensão moral da pauta precisa reconhecer que diversidade produz inovação, competência, conexão com o consumidor e geração de valor.

O trainee do Magalu e a coragem de romper um padrão

Um dos momentos centrais da entrevista é o relato sobre o programa de trainee exclusivo para pessoas negras lançado pelo Magalu. A iniciativa surgiu depois de anos em que a empresa manifestava o desejo de ampliar a presença negra na liderança, mas continuava sem encontrar resultados pelos caminhos tradicionais de recrutamento.

O anúncio provocou uma reação intensa. Houve críticas, pressões e questionamentos públicos. A companhia, porém, manteve a decisão de transformar a própria realidade. Passada a controvérsia inicial, o programa tornou-se referência dentro e fora do Brasil e inspirou outras iniciativas afirmativas.

Para Luiza, o resultado vai além da contratação. Uma organização mais diversa amplia seu repertório, eleva sua capacidade de inovar e questiona crenças limitantes. Mudanças de paradigma podem cobrar um preço no início, mas a coerência exige que o propósito permaneça como “espinha dorsal” da empresa, inclusive quando a pauta deixa de ser confortável.

Ações afirmativas para corrigir desigualdades

A conversa também enfrenta diretamente o debate sobre cotas. Luiza resume a lógica das ações afirmativas de maneira simples: elas são instrumentos temporários para corrigir uma desigualdade que impede a competição em condições equivalentes.

“Cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade.”

Políticas públicas e iniciativas empresariais cumprem, portanto, um papel concreto: fazer com que talentos antes ignorados tenham acesso às oportunidades. Não se trata de abandonar mérito, mas de reconhecer que o mérito só pode ser comparado de forma justa quando as portas de entrada deixam de excluir parte da população.

Um planejamento estratégico para o Brasil até 2040

Ao ampliar a conversa para o futuro do país, Luiza destaca ativos como a diversidade econômica, a capacidade de adaptação, os recursos naturais e o espírito empreendedor dos brasileiros. O principal obstáculo, em sua avaliação, é a ausência de um planejamento nacional capaz de atravessar governos e colocar o Brasil acima de interesses conjunturais.

A proposta é construir um plano estratégico até 2040, conhecido pela sociedade e sustentado ao longo do tempo. Mais do que uma lista de intenções, seria uma direção compartilhada para reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e transformar o potencial brasileiro em desenvolvimento efetivo.

Não ver a banda passar

No encerramento, questionada sobre o legado pelo qual gostaria de ser lembrada, Luiza escolhe uma imagem que resume sua trajetória: quer ser reconhecida como alguém que tocou na banda, em vez de apenas vê-la passar.

“Tem hora desafinada, tem hora cansada, mas sempre com a mesma intenção de fazer o bem comum para todos.”

A mensagem é um convite à ação. Liderança não é acomodação, unanimidade ou ausência de dificuldades. É a disposição de participar da mudança, sustentar decisões coerentes e mobilizar outras pessoas em torno de um objetivo comum.

Canal Equidade: diálogo que aproxima propósito e resultado

A entrevista reafirma a proposta do Canal Equidade: levar a agenda racial ao centro das decisões empresariais e mostrar, a partir da experiência de grandes lideranças, como inclusão, inovação e competitividade caminham juntas.

Conduzido por Ivan Lima, o projeto integra uma atuação mais ampla de articulação, produção de conhecimento e transformação organizacional. É também uma extensão do trabalho desenvolvido pela IRL Consult e pelo LIDE Equidade Racial para apoiar empresas e instituições na construção de práticas mais inclusivas, consistentes e capazes de gerar impacto mensurável.

O Canal Equidade é uma produção da TV LIDE, com coprodução da Trinca Produções. A terceira temporada tem patrocínio da Tour House.